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DTM: o que tratar no consultório e o que encaminhar

Sinais de alarme que mudam o diagnóstico, o exame básico da ATM e dos músculos com as medidas normais, o que a diretriz britânica recomenda manter na atenção primária e os critérios objetivos de encaminhamento.

Por Elias Alves, cirurgião-dentista · 24 de setembro de 2026

Interior of a conference room
Imagem referencial. Foto: Scott Webb · CC0 1.0 · Openverse

A disfunção temporomandibular é o segundo motivo mais comum de dor orofacial, depois da dor de origem dentária, e atinge até 1 em cada 15 pessoas, com predomínio entre 20 e 40 anos. É o que diz a diretriz Management of painful Temporomandibular disorder in adults, do programa Getting It Right First Time do NHS England com a Faculdade de Cirurgia Dentária do Royal College of Surgeons da Inglaterra, versão 1.1, de agosto de 2025.

Tratadas cedo, com técnicas simples e reversíveis, 75% a 90% das DTM melhoram a ponto de satisfazer o paciente. O que atrasa isso é a falta de um caminho estruturado, que produz jornadas circulares: boa parte do prejuízo é de gestão do percurso, não de técnica.

Primeiro: isto é DTM mesmo?

Menos de 1% dos quadros com sintomas parecidos com DTM são tumores intracranianos ou de oro e nasofaringe. É pouco — e é por isso que a lista de sinais de alarme precisa estar decorada, não deduzida:

Sinal Origem possível
Tumor maligno prévio com dor facial ou cefaleia; perda de peso não planejada Novo primário, recidiva, metástase, doença sistêmica
Linfadenopatia, massa ou aumento de volume em face ou pescoço Neoplásica, infecciosa ou autoimune
Febre, com ou sem edema e trismo Infecciosa
Claudicação da mandíbula com cefaleia unilateral, sintomas gripais, alteração visual, artéria temporal inflamada Arterite de células gigantes
Perda súbita de olfato ou audição, alteração visual aguda, alteração neurossensorial ou motora Neoplásica, infecciosa ou autoimune
Dor ao esforço, ao tossir ou espirrar Hipertensão intracraniana
Sangramento nasal volumoso ou secreção purulenta Neoplásica de nasofaringe ou infecciosa
Trismo profundo de início agudo ou em piora Neoplásica, infecciosa, artrogênica grave, traumática
Rouquidão ou úlcera oral persistentes (≥ 3 semanas) Neoplásica, autoimune
Alteração de oclusão Neoplásica, traumática, distúrbio de crescimento
Dor mandibular recente em quem usa bisfosfonato Osteonecrose por medicamentos

Qualquer um desses achados deixa de ser plano de tratamento e passa a ser encaminhamento urgente.

O exame básico, com números

O exame cabe numa consulta comum: inspeção extraoral de face e pescoço, palpação para afastar linfadenopatia e massas de glândula salivar, exame intraoral de tecidos moles e avaliação clínica, com ou sem radiografia, para afastar patologia dentária ou periodontal. Na atenção primária, testar no mínimo o nervo facial e o trigêmeo.

Para a articulação: palpar o polo lateral enquanto o paciente executa três vezes abertura, fechamento, protrusão e excursões laterais. O achado que interessa é a dor «familiar» — a que o paciente reconhece como a dor dele. Se a palpação do masseter a reproduz, provavelmente há componente miogênico. Medidas normais: abertura interincisal máxima sem auxílio ≥ 35 mm, protrusão e excursão lateral 7 a 12 mm.

Ruídos articulares se registram por tipo (clique, estalo, crepitação) e localização, e contam como positivos se o paciente os ouviu nos últimos 30 dias ou se alguém ouve no exame. Aqui está o que economiza tratamento desnecessário: deslocamento de disco com redução assintomático ocorre em 12% a 35% da população. Diante de ruído sem dor, a conduta é tranquilizar; tratá-lo não se justifica, porque não há garantia de eliminar o ruído.

O uso rotineiro de imagem ionizante da ATM para diagnosticar DTM dolorosa não é recomendado, e a panorâmica tem papel limitado. A triagem de três perguntas (3Q/TMD) apoia a história clínica, mas não diagnostica DTM e não deve ser usada como indicação de encaminhamento.

O que fica no consultório

A base do tratamento é o autocuidado apoiado, construído junto com o paciente. Os seis componentes centrais da diretriz: diagnóstico com educação sobre a condição e uso adequado de analgésico, exercícios executados pelo próprio paciente, modalidades térmicas, automassagem, dieta e nutrição, e comportamento parafuncional. Sono, atividade física, humor e relações entram no manejo de longo prazo. A orientação é explicar que não há cura para a DTM persistente, que os sintomas oscilam e que o alívio imediato é improvável, mas que o uso consistente das estratégias «abaixa o volume» da dor com o tempo.

Duas frases merecem ir para a parede: a «falha» do manejo conservador não justifica, por si, partir para estratégias cirúrgicas ou farmacológicas mais invasivas; e sem engajamento no autocuidado não há base sobre a qual outro tratamento funcione.

Sobre placas: indicadas para DTM miofascial e cefaleia atribuída à DTM, nunca isoladamente; não indicadas para tratar ruído articular; sem evidência de diferença entre os tipos, de modo que o clínico deve usar o desenho que domina; uso noturno por pelo menos 3 meses para avaliar o benefício, com suspensão se piorar o desconforto; e contraindicadas em paciente com doença dental ativa ou condição periodontal instável.

O que encaminhar, e com que critério

A diretriz reserva o encaminhamento precoce para um grupo pequeno e bem definido:

Situação Conduta
Qualquer red flag na história ou no exame Urgente, pela via de suspeita de câncer quando apropriado
Menos de 25 anos e abertura muito reduzida (< 25 mm) Urgente à cirurgia bucomaxilofacial, para desbloqueio precoce com ou sem artrocentese
Travamento fechado grave que compromete a nutrição Urgente à cirurgia bucomaxilofacial
DTM artrogênica grave: dor característica acima de 50 (escala 0–100), restrição alimentar por dor, abertura < 30 mm Precoce à cirurgia bucomaxilofacial, esclarecendo que cirurgia não é indicada em todos os casos
Cefaleia ou sintomas de ouvido que não parecem ligados à DTM, sem red flags Discutir com o médico; manejo da DTM começa no consultório
Apneia obstrutiva do sono, ou ansiedade e depressão graves Ao médico e início do autocuidado apoiado no consultório
Sofrimento mental com ideação suicida Avaliação no mesmo dia, com contato ativo do profissional

Repare no padrão: encaminhar quase nunca significa parar de tratar.

Perguntas frequentes

Ajustar a oclusão resolve? A base é o manejo reversível e não invasivo. Placas de cobertura total com contato bilateral equilibrado são mais robustas e não causam alteração oclusal desfavorável; placas macias e de cobertura parcial podem alterar a oclusão e agravar dor artrogênica, com uso curto e supervisionado.

Quanto tempo esperar antes de encaminhar? Não há prazo fixo. Os gatilhos são objetivos: red flags, abertura reduzida nos limites citados, comprometimento da nutrição e dor intensa com restrição alimentar.

Esta é uma diretriz britânica. Vale aqui? Os critérios clínicos e as medidas são aplicáveis; muda o caminho administrativo, que no Brasil passa pelo serviço de referência local, pela cirurgia bucomaxilofacial ou pelo colega de DTM e dor orofacial.

Fontes