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Atendimento odontológico do paciente oncológico: antes, durante e depois

Com quanta antecedência adequar o meio bucal, o que tem evidência contra a mucosite, como manejar xerostomia e cárie de radiação, e os cuidados com osteorradionecrose e osteonecrose por medicamentos.

Por Elias Alves, cirurgião-dentista · 19 de setembro de 2026

Lilongwe, Malawi - Staff Sgt
Imagem referencial. Foto: autor não indicado · CC0 1.0 · Openverse

O paciente oncológico chega ao consultório em três momentos muito diferentes: antes de começar o tratamento, no meio dele e anos depois. Em cada um, o que o cirurgião-dentista faz muda o desfecho — e o erro mais caro é tratar os três como se fossem o mesmo paciente.

Antes: a janela tem prazo

A diretriz The Oral & Dental Management of Patients Before, During and After Cancer Therapy, da Faculdade de Cirurgia Dentária do Royal College of Surgeons da Inglaterra, em versão de fevereiro de 2026, dá os números que faltavam:

  • remover focos infecciosos orais com no mínimo 10 dias de antecedência do início da terapia oncológica;
  • idealmente 14 a 21 dias entre a exodontia e o início da radioterapia, para cicatrização máxima;
  • raspagem e tratamento endodôntico ao menos 2 semanas antes da radioterapia, quando possível, porque evidência emergente sugere que isso reduz o desenvolvimento de osteorradionecrose;
  • garantir que o paciente esteja «dentalmente apto» antes de começar: sem patologia ativa, sem dor, sem necessidade urgente.

A mesma diretriz oferece um critério para a decisão mais difícil — que dente sai. No Tier 1 entram dentes de mau prognóstico atual ou com risco de infecção, como os associados ao tumor, os de estado restaurador, endodôntico ou periodontal ruim e os não vitais: exodontia altamente recomendada. No Tier 2, prognóstico duvidoso, como dentes muito restaurados, posteriores não funcionais ou com acesso reduzido pelo trismo futuro: podem ser mantidos, desde que o paciente saiba do risco posterior de osteorradionecrose e de osteonecrose por medicamentos. E um alívio útil: dentes permanentes com lesão periapical assintomática menor que 5 mm raramente são exacerbados pela terapia oncológica.

Vale ainda a orientação do National Cancer Institute de avaliação com radiografias de boca toda, rastreio de cárie, restaurações defeituosas, mobilidade, bolsas profundas, terceiros molares e lesões periapicais, com troca de restaurações mal adaptadas e alívio de arestas cortantes.

Durante: o que tem evidência contra a mucosite

Aqui vale separar o que as diretrizes de 2019/2020 da MASCC/ISOO recomendam do que a prática repete por hábito.

Intervenção Posição da MASCC/ISOO
Fotobiomodulação intraoral com laser de baixa potência Recomendada para prevenção em TCTH condicionado com quimioterapia em altas doses (nível I) e em câncer de cabeça e pescoço com radioterapia (nível II) ou radioterapia com quimioterapia (nível I), seguindo os parâmetros do protocolo escolhido
Crioterapia oral Recomendada em TCTH autólogo com melfalano em alta dose, e 30 minutos de crioterapia na quimioterapia com 5-FU em bólus (nível II)
Protocolos de cuidado bucal com múltiplos agentes Sugeridos para quimioterapia, radioterapia de cabeça e pescoço e TCTH (nível III)
Bochechos brandos (soro fisiológico, bicarbonato) Sem diretriz possível; o painel reconhece que são inertes, aumentam a depuração oral e ajudam no conforto
Clorexidina para prevenir mucosite em radioterapia de cabeça e pescoço Sugestão contra o uso (nível III)

O NCI descreve escovação 2 a 3 vezes ao dia com escova macia e dentifrício fluoretado, fio dental sem traumatizar, bochechos de soro a 0,9%, bicarbonato ou a combinação a cada 4 a 6 horas, e, quando a clorexidina for indicada por outro motivo, formulação sem álcool a 0,12%–0,2%. Nas três primeiras semanas após transplante de células-tronco, a prótese removível é usada só para comer. A ADA acrescenta que as misturas conhecidas como magic mouthwash carecem de evidência de eficácia. E a diretriz britânica é direta: evitar exodontia durante a terapia oncológica; se for inevitável, articular com o oncologista ou hematologista.

Xerostomia e cárie de radiação

A hipofunção salivar muda o risco de cárie para o resto da vida. A diretriz britânica indica dentifrício com no mínimo 1.350 ppm de flúor e considera prescrever 2.800 ou 5.000 ppm para quem tem alto risco de cárie de radiação, sem enxaguar a boca depois da escovação, com escovação à noite e em outro momento do dia, limpeza interdental diária na presença de inflamação gengival e, se indicado, enxaguatório fluoretado a 0,05% sem álcool em horário diferente da escovação. A ADA descreve também gel de fluoreto de sódio neutro a 1,1% ou fluoreto estanhoso a 0,4% sem sabor, por 2 a 3 minutos ao dia. Para a boca seca, há substitutos salivares — e convém saber que alguns contêm mucina de origem porcina ou derivados de leite e ovo, o que importa por religião e por alergia.

Osteorradionecrose, osteonecrose e trismo

Segundo a ADA, a osteorradionecrose ocorre raramente com doses abaixo de 6.000 cGy e sua prevalência descrita vai de 2% a 15%. Sobre o trismo, a diretriz britânica registra que não há consenso quanto à intervenção ideal, que começar cedo e a adesão aos exercícios melhoram o resultado, e faz um alerta que não se pode esquecer: a equipe deve checar se a limitação de abertura não é recidiva local, metástase ou segunda lesão maligna.

Do lado dos medicamentos, a anamnese precisa perguntar por antirreabsortivos e antiangiogênicos pelo nome. Dor mandibular de início recente em quem usa bisfosfonato é sinal de alarme de osteonecrose associada a medicamentos — a diretriz britânica de DTM a lista explicitamente entre os red flags.

Depois: seguimento que não termina

A diretriz britânica orienta intervalo de retorno individualizado pelo risco, com exame a cada três meses durante o tratamento em pacientes de alto risco, e exame a cada seis meses, no mínimo, para quem fez transplante de células-tronco. Para crianças e adolescentes tratados, recomenda seguimento por toda a vida, com atenção ao risco de câncer de boca, descrito como cinco vezes maior que na população geral.

Perguntas frequentes

Com quanta antecedência posso extrair? No mínimo 10 dias antes do início da terapia oncológica, e idealmente 14 a 21 dias antes da radioterapia.

Clorexidina previne mucosite? Em radioterapia de cabeça e pescoço, a MASCC/ISOO sugere não usar com esse objetivo. Isso não impede seu uso por outras indicações.

Todo dente de prognóstico duvidoso precisa sair? Não. O Tier 2 da diretriz britânica prevê manutenção com consentimento esclarecido sobre o risco futuro de osteorradionecrose e osteonecrose.

Fontes