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Facetas: indicações, limites e consentimento

Quanto esmalte se perde, o que as taxas de sobrevida realmente dizem, como alinhar expectativa antes do desgaste e o que o termo de consentimento e o prontuário precisam trazer.

Por Elias Alves, cirurgião-dentista · 26 de setembro de 2026

Facetas cerâmicas finas vistas contra a luz
Foto: Dentista Live

Faceta é um dos poucos tratamentos em que o paciente chega com o resultado já decidido na cabeça, muitas vezes com a foto de outra boca no celular. O risco clínico é conhecido e administrável. O risco de gestão é o que derruba consultório: o caso tecnicamente correto que termina em reclamação porque o que foi entregue não era o que o paciente imaginou.

O que a evidência mostra sobre longevidade

Uma revisão sistemática com metanálise reuniu 29 estudos clínicos, 41 braços, 7.753 facetas cerâmicas em 986 pacientes, com acompanhamento de 1 a 20,7 anos. No grupo de longo prazo, com média de 10,4 anos:

Material Sobrevida em 10,4 anos Complicações técnicas Estéticas Biológicas
Feldspática 96,13% 41,48% 19,64% 6,51%
Cerâmica reforçada por leucita 93,70% 29,87% 17,89% 4,40%
Dissilicato de lítio 96,81% 6,10% 1,90% 0,45%

Dois pontos valem mais do que a tabela inteira. Primeiro: sobrevida alta não é ausência de problema. Uma faceta feldspática com 96% de sobrevida em dez anos conviveu com 41% de complicação técnica no mesmo período. O dente estava lá; o caso deu trabalho. Segundo: a revisão identifica como fator de risco a colagem em áreas maiores de dentina — sete estudos relataram facetas coladas somente em esmalte, e sobreposição incisal com margens em esmalte se associou a menos falhas. Os autores declaram limitações: não há ensaios randomizados comparando materiais, as definições de sucesso variam e os intervalos de recall são subnotificados.

Quanto esmalte sai, e quando não sai

Uma revisão sobre facetas com e sem preparo separa as abordagens pelo que elas custam em estrutura dentária: preparos convencionais removem em geral 0,3 a 1,0 mm, com perda irreversível de estrutura; facetas de mínimo ou nenhum preparo ficam na faixa de 0 a 0,3 mm, com custo biológico baixo e menos sensibilidade pós-operatória.

A indicação segue essa lógica, e não a preferência de marketing:

  • Sem preparo ou preparo mínimo: dentes bem alinhados, exigência estética pequena, ausência de descoloração intrínseca.
  • Convencional: primeira escolha quando há descoloração difícil de mascarar, alteração morfológica ou desvio de alinhamento a corrigir.

As duas não são rivais; são complementares, escolhidas pelo caso. E a contraindicação da faceta sem preparo é justamente o que o paciente costuma pedir: mascarar cor e corrigir posição sem tocar no dente.

O caso que dá reclamação não é o que fratura

Vale olhar de onde vêm as queixas. Um estudo levantou as reclamações fundamentadas contra prestadores de serviços odontológicos no Procon da cidade de São Paulo entre 2006 e 2010: 641 reclamações (59 em 2006, 41 em 2007, 145 em 2008, 190 em 2009 e 206 em 2010). Os seis motivos principais responderam por 92,2% do total, e os três primeiros foram:

  1. Rescisão, substituição ou alteração de contrato — 153 casos (23,9%)
  2. Não cumprimento de ofertas — 144 casos (22,5%)
  3. Qualidade ou eficácia deficiente — 125 casos (19,5%)

Ou seja: o primeiro e o segundo motivos não são clínicos. São contrato e promessa. Os autores concluem recomendando clareza sobre plano de tratamento, alternativas e valores, com documentação adequada no prontuário. É exatamente o ponto cego do caso estético.

O que fazer antes de encostar a broca

Fotografe. Antes de qualquer desgaste, registre as fotografias iniciais — frontal com sorriso, frontal em repouso, laterais, oclusais e a cor inicial com escala. Elas servem para três coisas: planejar, comparar e, se um dia for preciso, mostrar de onde se partiu. Sem foto inicial, a discussão sobre o resultado não tem outro lado.

Ouça a expectativa em voz alta e escreva. Peça ao paciente para descrever em palavras o que espera mudar, e anexe a foto de referência ao prontuário com a anotação do que é e do que não é alcançável naquele caso. Isso transforma expectativa em item verificável.

Separe os problemas. Cor, forma e posição têm custos biológicos diferentes. Caso que precisa de correção de posição e é resolvido com desgaste é decisão que merece estar escrita, com a alternativa ortodôntica registrada como oferecida.

O que o consentimento precisa trazer

O Código de Ética Odontológica dá a espinha dorsal. É infração ética iniciar qualquer procedimento ou tratamento odontológico sem o consentimento prévio do paciente ou do responsável legal, exceto em urgência ou emergência (art. 11, X); deixar de esclarecer adequadamente os propósitos, riscos, custos e alternativas do tratamento (art. 11, IV); exagerar em diagnóstico, prognóstico ou terapêutica (art. 11, III); executar ou propor tratamento desnecessário ou para o qual não esteja capacitado (art. 11, V); e adotar novas técnicas ou materiais sem efetiva comprovação científica (art. 11, IX).

Sobre o registro, o artigo 17 é obrigação, não recomendação: elaboração e manutenção de prontuário legível e atualizado, conservado em arquivo próprio, físico ou digital, com os dados clínicos necessários à boa condução do caso, preenchido em cada avaliação, em ordem cronológica, com data, hora, nome, assinatura e número de registro no CRO. E negar ao paciente acesso ao prontuário, deixar de fornecer cópia quando solicitada ou deixar de dar as explicações necessárias à sua compreensão é infração ética (art. 18, I).

Um termo de consentimento para facetas que se sustenta traz, em linguagem que o paciente entende:

Item O que precisa estar escrito
Diagnóstico e objetivo O que se pretende mudar, em palavras do paciente
Alternativas oferecidas Clareamento, resina direta, ortodontia, não tratar
Irreversibilidade Que o preparo remove estrutura e não se desfaz
Faixa de desgaste prevista Preparo convencional de 0,3 a 1,0 mm; mínimo de 0 a 0,3 mm
Limites do resultado Que cor, forma e posição têm limite naquele caso
Longevidade e manutenção Sobrevida esperada, complicações técnicas e estéticas possíveis, necessidade de recall
Risco de reintervenção Que faceta pode descolar, fraturar ou precisar de troca
Contraindicações e cuidados Hábitos, bruxismo e o que compromete o resultado
Custos Valor, o que está incluído e o que é cobrado à parte em reintervenção
Fotografias Autorização para registro clínico, separada da autorização de divulgação

A última linha merece atenção própria. Registro clínico e publicidade são autorizações diferentes. O Código de Ética define como infração ética fazer publicidade enganosa ou abusiva, inclusive com expressões ou imagens de antes e depois (art. 44, I), e expor ao público leigo artifícios de propaganda, especialmente imagens ou expressões de antes, durante e depois de procedimentos odontológicos (art. 44, XII). O CFO publicou a Resolução CFO-196/2019 regulamentando a divulgação de imagens de diagnóstico e de resultado final, que exige autorização formal por escrito do paciente e identificação do profissional que executou o procedimento com o número de inscrição no CRO. Na prática: nunca use a foto do caso em rede social com a autorização de prontuário; é outro documento.

Perguntas frequentes

Faceta sem preparo é sempre melhor? Não. É melhor quando a indicação permite: dente alinhado, exigência estética pequena e sem descoloração intrínseca. Fora disso, o resultado tende a ficar volumoso ou insuficiente.

Quanto tempo dura uma faceta? Nas metanálises de longo prazo, a sobrevida em torno de 10 anos ficou entre 93,7% e 96,8% conforme o material — com taxas de complicação bem mais altas do que as de perda. Diga as duas coisas ao paciente, não apenas a primeira.

Posso recusar o caso? Pode, e às vezes deve. Propor tratamento desnecessário ou para o qual não se esteja capacitado é infração ética (art. 11, V). Expectativa incompatível com o que o caso permite é motivo clínico legítimo de recusa, registrada no prontuário.

As fotos fazem parte do prontuário? Sim, e a elaboração, a atualização e a conservação do prontuário em arquivo próprio são obrigatórias (art. 17). Quando fotos, evolução e termo assinado ficam juntos e datados, recuperar um caso de cinco anos atrás deixa de depender de memória — é o que faz um software odontológico para consultórios.

Fontes